Luiz Antonio Simas
Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Suas canções foram gravadas por artistas como Maria Rita, Marcelo D2, Rita Benneditto, Douglas Germano, Moyseis Marques, Lúcio Sanfillippo e Fabiana Cozza.
Os mais velhos diziam existir uma diferença entre as rezadeiras e as benzedeiras. As rezadeiras eram aquelas que se baseavam exclusivamente no poder das orações para afastar males diversos. As benzedeiras usavam, além das orações, outros elementos em seu ofício: folhas, velas, copo d´água, escapulários etc. Muitas rezadeiras eram benzedeiras também.
Com o tempo, as duas denominações passaram a ser sinônimos: benzedeiras e rezadeiras utilizam-se de saberes tradicionais, passados através de gerações, para curar as mazelas do desencanto do corpo e do espírito.
Cresci ouvindo falar de gente com espinhela caída, nervo torcido, quebranto, urina presa e furúnculos nos mais variados lugares do corpo tratados com emplastos de farinha untada com óleo de mamona ou com folhas de saião. A melhor forma de curar essas ziquiziras, entretanto, era mesmo tendo uma boa rezadeira e benzedeira por perto.
Sabedoras de jaculatórias ancestrais herdadas do cristianismo popular, encruzilhadas pelas sabenças indígenas e africanas e passadas entre gerações da família, as senhoras rezadeiras operavam prodígios com seus galhinhos, profundo conhecimento dos elementos terapêuticos das folhas e o poder da palavra. Não negavam a ciência da medicina, não se colocavam acima de tratamentos formais e ofereciam seus saberes na maioria das vezes por caridade e absoluta consciência do dom herdado das avós. Sabiam conversar com as chuvas e reconheciam pelo cheiro a tristeza e a alegria de cada planta.
Minha avó, versada em benzeduras, gostava de indicar, para a proteção das casas, vasos com sete ervas abrideiras, folhas de proteção bastante utilizadas na medicina popular: manjericão para trazer tranquilidade, guiné para afastar espíritos indesejáveis, arruda para afastar o mau-olhado, alecrim para atrair a felicidade, pimenta para secar a inveja, comigo-ninguém-pode e espada- de- São Jorge como escudos de guerra e armas de combate.
É cada vez mais difícil encontrar rezadeiras e benzedeiras nos dias de hoje. O dom passado entre gerações de mulheres poderosas, o poder de encantar as folhas, a capacidade de apaziguar angústias com o olhar, a simplicidade de compartilhar o café fresquinho e um pedaço de bolo de fubá, parecem sucumbir diante da aceleração brutal do tempo, da ânsia produtivista, da primazia da fala sobre a escuta e da dispersão dos saberes tradicionais diante das urgências de um mundo obcecado pelo vazio do instante.
É cada vez mais raro encontrar quem ainda seja capaz de amansar as agruras do tempo e evocar a saúde na formosa e sussurrada língua capaz de adormecer ou acordar as folhas. Se você tem uma rezadeira na família, ignore o relógio e escute as histórias que ela tem para contar.
Fonte: ICL Notícias


